Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Vendedor de sonhos

“Sou um vendedor de sonhos.”

Esta frase martelou-me o cérebro. Não, não sou um vendedor de banha de cobra. Sou mesmo um vendedor de sonhos. E, hoje, vi como é fácil fazer as pessoas sonharem um pouco.

Há muitos anos que faço a gestão de uma sociedade, se assim lhe quisermos chamar, que semanalmente aposta nos jogos da Santa Casa. Sociedade que varia em número de pessoas ao longo dos anos. Já foram trinta e tais e também já foram dez. Neste momento somos dezasseis. Vão saindo ou entrando à vontade de cada um, sujeitos a regras e tempos.

Tinha na última anunciado que queria alguém que me substituísse na gestão. Forneceria os materiais por mim criados, uma folha de cálculo trabalhada de forma a que basta introduzir as chaves saídas para se saber se existe algum prémio. Enfim, tudo está facilitado ao máximo pelo que, gerir esta sociedade é só receber semanalmente, registar o pagamento individual, registar os boletins e comunicar ao grupo os resultados. O “programa” calcula tudo até o que cada um terá a receber individualmente. Mas, mesmo com este facilitismo, ninguém quis. Porque eu "era a pessoa indicada", porque "ninguém o faria como eu", etc, bajulices com que me iam brindando com a finalidade de eu não parar. Mas, anunciei que ia sair, fechar a sociedade, fazer as contas e dar a cada um o devido e, sair.

Mas, vais mesmo sair? – foi a pergunta várias vezes formulada.

Ninguém se atrevia a contestar o meu “sim”. Mas, com o aproximar do fim do tempo da sociedade, alguns vieram ter comigo. Questionaram se estaria chateado. Não, disse-lhes, não estava nada chateado, com nada nem com ninguém. Apenas que achava que outro, mais novo, devia assegurar a continuidade porque oito anos a gerir dinheiros de outros é uma responsabilidade grande, mesmo que esses dinheiros fossem uns simples 2,50€ de cada um.

Não, não vais parar – disseram - Se tu parares ninguém vai começar. E, depois de tantos anos...

Bem, a “pedido de tantas famílias”, e não foi preciso insistirem muito. Lá me decidi a continuar. Não que não me agrade mas, queria que outros experimentassem a responsabilidade de estar ali. E, para gáudio de todos, lá os informei que afinal ia continuar a sociedade.

-Alguém quer sair? Ninguém!

E, como há elementos novos na sala, faço o convite: Alguém quer entrar?

-Mas... claro! - disseram logo sem hesitação - Quais são as regras e quanto?

-Já digo a todos. Tenho de recalcular tudo.

Lá fiz as contas e, como é norma, tudo é sujeito à consideração e aprovação da maioria, maioria essa que as mais das vezes nem contesta e apenas referem que o que eu faça está bem feito. Até nisso, nem luta dão. Mas, comuniquei que, mantendo as chaves anteriores, o custo semanal seria mais leve, ficaria por 2 euros semanais, e ainda sobravam uns trocos que iriam ser amealhados semanalmente e distribuídos no fim da sociedade.

-Fantástico! – disseram

-E, agora, contas. Cada um tem a receber XX.

Quase ninguém quis receber o dinheiro. Quiseram convertê-lo em pagamento adiantado das próximas semanas. Claro que alguns ficaram quase com metade do ano já pago.

Entretanto, a primeira semana não saiu nada. Nem uma terminaçãozinha...

Mas, ninguém ficou preocupado. Afinal é aquilo a que estão mais habituados: nada sair.

Mas, na segunda semana, houve um triplo prémio na mesma semana. E, hoje, quando comuniquei, via email claro, que havia saído um prémio na sexta-feira, outro no Sábado e outro na segunda-feira, tornou-se o motivo de conversa do dia.

-Esperem, - disse-lhes - são apenas uns poucos de euros que mal dão para um café e um bolo a cada um.

-O que interessa é que saiu. E logo três prémios. Ainda vamos lá chegar...

E, começaram os sonhos, imaginando-se já a dividir um prémio chorudo. Parecia que o dia rendia mais, que estavam mais felizes, como se tivessem recebido algo mesmo importante. Foi o motivo da conversa do dia entre os “sócios” e, um pouco de desespero entre os que não pertenciam. E, do meu lugar, com um olhar sobre toda a sala, observava-os. Pareciam diferentes, mais satisfeitos, talvez acreditando que podiam mesmo um dia lá chegar. Pareciam trabalhar com mais boa disposição.

Os únicos que vêm a situação com alguma apreensão são o meu director e o supervisor. É que, maldade minha e, porque não sou um santinho, vedei o acesso à sociedade a todos os cargos de chefia. Daí que eles sabem da existência mas, ficam apreensivos com o que poderia acontecer se saísse mesmo um prémio muito grande... é que o problema é que, um departamento quase inteiro... é melhor nem pensar do que eu seria acusado pela empresa.

Pensei para comigo. Por vezes é preciso tão pouco para fazer a diferença entre sentirem-se felizes ou estarem mais sorumbáticos...

E, sentia-me um vendedor de sonhos, um verdadeiro vendedor de sonhos. Acabara de vender um dos maiores sonhos com que qualquer um anseia: que tudo é possível!

Não interessa o quê mas quando sentimos que é possível alcançarmos algo que desejamos, mesmo que apenas em sonho, adquirimos novas forças.

E, ao longo do dia, se passavam pela minha secretária, brindavam-me com “piropos” do género: “Não podes sair mesmo. Tens de continuar...” ou “Ainda bem que não saíste. Vês como a sorte vai mudar?” ou “Havemos de conseguir...”

Pois, eu continuo. Posso nunca os conseguir fazer ficar “ricos” mas, vou-lhes vendendo sonhos... e aproveitando para, também eu, comprar uns quantos ao mesmo preço dos deles.

“P´rá semana é que é. Vais ver... “ - diziam alguns quando passavam por mim.

E, eu sorria.

Porque não? Afinal, eu também compro a minha parte do sonho...


publicado por Francisco às 00:04
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